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Medicando em tempos de gripe septiembre 28, 2009

Posted by conexioniberoamerica in Reflexiones.
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Tema recorrente na mídia desde o início do ano, a Gripe A H1N1 ganhou espaço em todos os cenários mundiais. As divergentes informações e as constantes especulações sobre o tema geraram um verdadeiro pânico na população. Em seu texto “Medicando em Tempos de Gripe”, Patricia Bandeira compartilha suas experiências e seu ponto de vista frente a essa situação.

Medicando em tempos de gripe

Patricia Bandeira

Mesmo que o tema pareça um pouco desatualizado creio que ainda é tempo para compartilhar as experiências e a visão de quem esteve na frente de batalha no atendimento da gripe A H1N1 em um dos hospitais de referência para a pandemia em São Paulo.

Pelo menos desde 2000 já se sabia da proximidade de uma pandemia de Influenza e após 2005, muitos países, incluindo o Brasil, já tinham um plano estratégico para enfrentar essa situação. Portanto, não foi uma surpresa para a comunidade científica internacional, mas ao mesmo tempo não seria possível prever quando e como seria o surgimento de um novo vírus.

A nova pandemia poderia se expressar como a Gripe Espanhola de 1918 – primeira e mais grave pandemia de Influenza da história ou como a atual que, apesar da alta infectividade do vírus não apresenta altas taxas de mortalidade.

E foi assim que entre março e abril de 2009, simultaneamente nos Estados Unidos (EUA) e México, foram notificados os primeiros casos de uma gripe que parecia ser nova. Em 14 de abril tivemos o primeiro caso confirmado nos EUA. No dia 25 desse mesmo mês a Organização Mundial da Saúde (OMS) declara Emergência em Saúde Pública de Interesse Internacional alertando a todos os países sobre o surgimento de um novo vírus e a possibilidade de epidemia e pandemia de Influenza.

virus H1N1

Vírus H1N1

Nesse caso o mundo globalizado, onde as pessoas se deslocam rapidamente entre as regiões, países e continentes a possibilidade de disseminação do vírus aumenta substancialmente e, finalmente em 11 de junho chegamos à realidade pandêmica (ou fase 6). Particularmente no Brasil, em 16 de julho se constataram os primeiros casos autóctones (casos em que a transmissão ocorreu dentro do território nacional).

Por todas essas novidades constantes, perfeitamente normais dentro de um contexto pandêmico, tanto a comunidade médica como a sociedade civil se viram numa esfera de grande insegurança. Essa situação representou um “prato cheio” para notícias sensacionalistas na mídia, para a indústria farmacêutica e contribuiu para uma sensação de pânico na população. Ressalto aqui o poder dos meios de comunicação em mobilizar pessoas e ditar comportamentos.

Narro um exemplo tragicômico. Um dos maiores jornais do Brasil publicou uma reportagem sugerindo que o melhor horário para se procurar atendimento médico seria durante a madrugada, quando os hospitais estavam mais vazios. Claro! Não foram necessárias mais que 24 horas para que os pacientes ocupassem os pronto-socorros nessa hora. No entanto, nesse período as equipes são muito reduzidas e alguns recursos não estão disponíveis!

O clima de medo se refletiu diretamente em nossa demanda de trabalho. Muitas pessoas procuraram atendimento, mesmo sem qualquer sintoma. Puramente por medo. E, num contexto onde os hospitais públicos já trabalhavam acima de sua capacidade, o caos se instalou.

Os pacientes com suspeita de gripe A acreditavam que poderiam morrer a qualquer momento e exigiam atendimento imediato. Ao mesmo tempo, nós profissionais da saúde precisávamos ser firmes para manter a postura de atender prioritariamente os casos mais graves. Nossa integridade física foi ameaçada pelos pacientes por diversas vezes. Infelizmente não poderei entrar em detalhes neste texto, mas tão logo regressamos de Madrid iniciei, junto aos meus colegas residentes, um período de reivindicações de melhorias e ameaças de paralisações. Garanto a vocês, não foi fácil!

Até então o sentimento que tomava os médicos e os profissionais de saúde era de insatisfação e angústia. Insatisfação em relação às freqüentes notícias divulgadas pelos meios de comunicação (muito longe de terem um papel de conscientização e educação da população, priorizavam a manchete capaz de vender mais). Angústia pela necessidade de atualização constante dadas as rápidas mudanças nos protocolos de atendimento orientadas pelo Ministério da Saúde.

A partir de dados da OMS não há nenhuma evidência de nova mutação no vírus e o quadro clínico se mantém semelhante ao da gripe sazonal, com taxas de mortalidade iguais ou inferiores. A principal diferença entre essas duas entidades se refere às características da população afetada. A gripe A claramente afeta e mata pessoas mais jovens e por vezes saudáveis. A evolução dos casos graves também é distinta e requer na maioria das vezes suporte de terapia intensiva.

A difusão maciça do vírus e o aumento no número de casos geraram crescimento proporcional de formas graves da doença e o maior contato com esses pacientes amedrontou também a comunidade médica. Para mim não foi diferente. Aqui convivemos com a dificuldade em se oferecer assistência adequada à população. Nossos leitos de terapia intensiva são insuficientes. Não temos condições reais para enfrentar uma demanda maior nesse setor. Essa realidade é comum a todos os países em desenvolvimento, onde a pandemia pode trazer conseqüências ainda mais arrasadoras.

Na tabela abaixo estão apresentados os números absolutos de morte nos países Iberoamericanos. Os dados são difíceis de serem comparados já que cada país adotou uma estratégia de diagnóstico. Sendo assim não temos mais, na maioria dos países, o número de total de casos. Fato é que a mortalidade em nenhum dos países superou os dados da gripe sazonal.

tabela virus

A situação atual demonstra diminuição substancial do número de casos nos países de clima temperado do Hemisfério Sul, mantendo ainda aumento no número de casos nos países ou regiões tropicais onde o vírus demorou mais a chegar. Existe uma tensão em relação ao início do inverno no Hemisfério Norte, época propícia para o alastramento do vírus da gripe.

A OMS alerta sobre a possibilidade de uma segunda onda de disseminação do vírus nesse contexto e, conforme observação de outras epidemias, essa nova onda seria ainda mais agressiva. Sendo assim os países do Hemisfério Norte e os de clima tropical devem se preparar. E os países onde o número de casos está diminuindo devem permanecer vigilantes.

Sabe-se que uma das maneiras mais eficientes em se conter essa segunda onda seria a vacinação maciça da população. A vacina está em fase final de elaboração e o desafio será planejar sua distribuição. A pergunta será que países e quais grupos de pessoas deverão ter acesso mais rápido à vacina. Está claro que o Hemisfério Norte e países tropicais devem ter prioridade nesse momento.

Retrospectivamente, percebe-se que muitas condutas foram guiadas pelo medo e pela sensação de não domínio da realidade. Infelizmente, a cada surgimento de um novo vírus essa situação tende a se repetir. Biologicamente é impossível prever o comportamento de um agente novo. Só se sabe o grau de infectividade do vírus (o quanto o vírus é capaz de se disseminar), a capacidade de transmissão inter humana e sua virulência (a gravidade da doença provocada por esse vírus) após a expressão da doença na comunidade.

Estamos vivendo um momento histórico em matéria de Saúde Pública e Sanitarismo. Mas quando se trata de pandemia as repercussões abrangem uma esfera ainda mais ampla – afetam a economia, a política, a educação, etc. Seria impossível retratar tudo em um único texto. Aproveito para terminar com uma frase ilustrativa de uma de minhas professoras da Universidade: “A pandemia representa uma ruptura social”.

Patricia Bandeira Moreira Rueda Germano é Brasileira, médica residente do Programa de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo e membro da Conexão Ibero-América.

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Há mais de 60 dias septiembre 17, 2009

Posted by conexioniberoamerica in Memorias.
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Saudade. Essa poderia ser a palavra e o sentimento que definem a experiência do Programa Jóvenes Líderes Ibero-Americanos. Aqueles que participaram não serão mais os mesmos. As amizades criadas não serão esquecidas.No texto “Há mais 60 dias”, Ana Isaia Barretto expõe seus sentimentos e memórias sobre o VIII Programa Jóvenes Líderes Ibero-Americanos, recordando de pessoas e momentos inesquecíveis.

Há mais de 60 dias

Ana Isaia Barretto

Há mais de 60 dias, eu estava vivenciando uma experiência única e inesquecível;

Há mais de 60 dias, eu descobri junto com mais 4 brasileiros que o Brasil é um país dos sonhos para muitos;

Há mais de 60 dias, conheci 5 espanhóis que me fizeram enxergar um outro lado da Espanha;

Há mais de 60 dias, 2 portuguesas me mostraram como é bom falar português e dividir muitas afinidades culturais;

Há mais de 60 dias, conclui com 5 argentinos que a rivalidade entre o Brasil existe somente na teoria;

Há mais de 60 dias, percebi através de 5 mexicanos, 1 guatemalteca, 1 salvadorenho, 1 costarriquenho, 1 boliviano, 2 hondurenhas, 1 panamenha, 1 cubano, 2 equatorianos, 3 peruanas, 5 colombianos 1 dominicano e 2 nicaraguanos, que as belezas naturais desses países transparecem em seus habitantes;

Há mais de 60 dias, aprendi com 3 chilenos e 2 venezuelanos  a arte de elaborar perguntas pertinentes e inteligentes;

Há mais de 60 dias, constatei por meio de 1 paraguaia e 1 uruguaia que além da proximidade geográfica temos muito mais semelhanças do que diferenças;

Há mais de 60 dias, essas 49 pessoas acrescentaram mais alegria e informação em minha vida;

Há mais de 60 dias, aumentei a minha rede de relacionamentos e, principalmente, de conhecimentos;

Há mais de 60 dias, conheci autoridades, políticos, empresários, pesquisadores, professores, e até príncipes!

Há mais de 60 dias, conquistei 49 amigos;

Há mais de 60 dias, compreendi como juntos podemos fazer a diferença;

Há mais de 60 dias, identifiquei que nós podemos iniciar as mudanças;

Há mais de 60 dias, percebi que é possível melhorar a Ibero-américa;

Há 60 dias, tenho vontade de reencontrar todos meus amigos ibero-americanos;

Há 60 dias, voltei com uma bagagem cultural que ninguém poderá me tirar, e que levarei para sempre em minha vida;

E se passaram 60 dias de muitas saudades!

Ana Isaia Barretto é Brasileira, relações públicas, Mestranda de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e membro da Conexão Iberoamérica.